sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

tocar violino

Há todo um maranhal de informação na minha mente sobre este assunto e não sei se saberei explanar tudo aquilo que me assalta a consciência. Falo do meu sonho, já um pouco esquecido, daquilo que me apaixonou tantas e tantas vezes mas que pela realidade e talvez pela parca coragem em enfrentar o sonho, perdi. De uma certa forma. Ou talvez não totalmente. Falo do jornalismo. Das histórias, das pessoas, das estórias tamanhas, da verdade e dos "outros" factos, da pesquisa, investigação pura e isenta se assim lhe quiserem chamar.

Para mim acabou ou está de molho por enquanto. Por várias razões. Sobretudo porque tenho a consciência de que me faltam algumas competências para entrar nessa área, que mais não é do que uma espécie de clube onde os associados se conhecem e são todos amigos. E por serem todos amigos arranjam facilmente empregos - não trabalho que trabalhar poucos o fazem - e têm bons ordenados. Mesmo muito bons, alguns poderão mesmo chegar a envergonhar um Eng.º ou Advogado. Os que chegam, imberbes como virgens adormecidas, têm de se sujeitar às condições que lhes são apresentadas ou deixar de ter amor próprio e exercer outras profissões sem descontos legais.

Mas o meu espírito crítico que funciona para tudo, também não se esmoreceu nas críticas ao que me vai passando pela frente. Falo do comportamento dos media, desde a rádio, televisão e não esquecendo os jornais e revistas que infelizmente não me fazem sentir vontade de os comprar. No final do ano passado tomei a decisão de deixar de ser assinante da Visão e já o era há mais de 10 anos, primeiro começou por ser a prenda do pai e depois a pagar do meu bolso. E eu e o pai decidimos que aquela revista já não valia o preço que custava. Ficaram as "primas": a Courier e a Visão História. E ficou um nó na garganta e muitas saudades...

Hoje deu-me para escrever sobre isto depois de ler que o Joaquim Fidalgo - um dos mestres do jornalismo em Portugal e um dos fundadores de um jornal que já foi de referência - estará presente no Congresso de Jornalistas no Teatro de S. Jorge, de 12 a 15 de janeiro, num painel onde se falará de ética. E perante esta presença talvez inusitada, ouviu de um colega: "O Titanic a afundar e tu a tocar violino!" E esta frase encheu-me o dia, a semana, o mês... sei lá. Já há muito tempo que algo não me fazia tanto sentido. Porque é mesmo isso: o barco está a afundar-se há muito tempo e na minha opinião a culpa não é dos jornalistas que ganham pouco, que têm ambição de crescer na profissão, ou nos estagiários... não! Isto são meramente desculpas ótimas para justificar o estado real onde chegamos... A culpa é dos séniores. Os jornalistas séniores quero eu dizer.

Mas como? Defendo isto porque tive experiências péssimas nos meus contactos iniciais à profissão e felizmente que não fiquei com esses exemplos para a vida. Ainda na faculdade pretendia ganhar experiência numa rádio, entrar e fazer noticiários e sobretudo respirar um pouco de comunicação ainda que numa fase muito inicial, mas para isso teria de ser admitida nessa mesma rádio. Na teoria íamos a uma entrevista com os diretores, também estudantes como eu, que nos avaliavam consoante alguns critérios. Na prática existia essa entrevista inicial mas só entrava realmente quem fosse amigo de quem estava na direção. E como nunca fui de ter muitos amigos ou sequer de os ter só por interesse - mea culpa sim - não entrei das duas vezes que tentei. Na segunda entrevista como já sabia da realidade do ingresso nem me esforcei e lembro-me de entrar já com a derrota no rosto. Sei onde estão e por onde passaram as duas pessoas que fizeram a minha avaliação. Crítica minha: não conhecem o código deontológico e têm uma fraca consciência de amor ao jornalismo puro. Isto justifica, de certa forma, tudo aquilo que se passou há anos em Coimbra. Entrei entretanto numa televisão também da academia onde não haviam estas restrições: entrava quem quisesse trabalhar e tivesse algum amor pela comunicação. E por lá fiquei a aprender, experimentar, a ganhar amor a estar atrás dos ecrãs.

A segunda experiência foi no estágio curricular na sede de um jornal diário nacional. Entre muitas coisas que julgo que não corriam bem, destaco a inveja e desconfiança dos jornalistas da casa pelos estagiários... sobretudo eu porque não concebia estar num jornal e não fazer pelo menos uma reportagem por semana. A única coisa que eu e algumas colegas estagiárias eram dignas de fazer era tratar os press releases enviados pela Lusa para não serem publicados ipsis verbis. Era estúpido e fazia-nos sentir ainda mais estúpidas. Não aceitei e tenho de agradecer ao meu orientador - um jornalista ao contrário de 99% dos meus colegas que escolhiam professores sem experiência na área - que me dava muita força e esperança e vontade de lutar uma e outra vez por aquilo que eu queria. E foi o que fiz. E tantas vezes na vida acho que se tivesse alguém a puxar por mim como ele fez - a puxar e a dar auto-estima, a afirmar assertivamente de que ia correr tudo bem ou nem precisava de o dizer, bastava olhar para ele nos olhos e simplesmente ler isso - tudo teria sido diferente! Nesse mesmo jornal, e perante alguma da minha curiosidade fui ouvindo histórias de alguns jornalistas que por ali estavam: o pai de uma era amigo do dono do jornal, a outra tinha como amante X, mas haviam alguns que mereciam o lugar que ocupavam e que representavam a profissão com algum brio. E com base neles ainda acredito numa reviravolta no jornalismo em Portugal.

Mas pegando nestes exemplos o que poderia eu, imberbe miúda, entender da profissão? Se tivesse uma carinha laroca e um corpo jeitoso podia tentar a minha sorte assim, ou poderia passar de ser amiga e aturar determinadas pessoas só porque teria algum benefício nisso. Como isso não faz parte do meu ADN, não joguei nestes dois partidos e aqui estou eu jogada no lixo e metida para canto.
No outro dia fiquei a saber que o filho de uma conhecida jornalista e autora de livros infantis, com nome na praça e uma carinha bonita, já trabalha em dois jornais de referência em Portugal mesmo ainda não tendo 20 anos e ainda estando a estudar. Não discuto o valor dele ou o esforço que está a fazer ao trabalhar e estudar em simultâneo, mas pergunto se ele fosse filho de outra pessoa se teria as mesmas oportunidades. Talvez não. E imagino-o daqui a uns anos como diretor de um jornal. Se será um bom diretor? Só o tempo o dirá mas talvez não o fosse se fosse outra pessoa.

Podem falar de blogues, redes sociais, precariedade no jornalismo, salários baixos, conteúdos patrocinados. Tudo isso calca o jornalismo e vai matando-o aos poucos. Mas há coisas mais importantes: o amor à profissão (toda a gente sabe que os jornalistas, regra geral, nunca foram muito ricos... eram sim pessoas que dedicavam uma vida à profissão e por isso eram puros e isentos..), a capacidade de olhar o mundo e aquilo que preocupa e anima as pessoas (e as redes sociais são ótimas bases para isso), conhecer o povo e as suas angústias (tantas vezes ouvi falar do táxi ser o melhor informador de um jornalista), a isenção (sem ela não há informação), separação óbvia e visível de interesses políticos e económicos (e há tantos diretores e jornalistas que não separam e nem tem vergonha de o admitir). O importante não é rótulo, o apelido, os amigos, os amigos dos amigos, o namorado ou o amante, o importante está lá dentro. No coração, na cabeça. A substância dos que exercem a profissão. E enquanto isso não for falado e discutido não levaremos este barco a um bom porto. E temo que vai piorar, as influências, os péssimos jornalistas a prevalecerem perante os bons, o dinheiro e interesse acima de tudo o resto.

A deontologia existe. Façam-na como uma realidade.


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