quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Uma pedra e outra pedra constroem algo

Sábado, dia 15 de setembro, foi um dia cheio de sentimenos diferentes e talvez por isso, só hoje consegui sentar-me e pensar sobre o assunto. Além da manifestção nacional contra as medidas de austeridade, ainda houve a festa de aniversário do meu sobrinho e o reencontro de muitos amigos, que apenas não via há umas 3 semanas mas que pareciam anos. E pouco tempo restou para pensar.

Começou por uma confissão de uma das minhas âncoras. Confissão feita não a mim mas a outra pessoa que sabia que me transmitiria a mensagem. Confissão do que fizera num papel há um ano e uns meses, mesmo depois da filha lhe ter chamado a atenção de que estavamos num tempo em que tudo deveria ser ponderado e bem pensado antes de ouvir as vísceras a reclamarem por um ódio a alguém que já tudo dera ao país e que já nem se preocupava com ele. Confessou, lamentou-se, as lágrimas estranhamente apareceram em olhos que nunca choram, e as desculpas vieram. Uma mensagem indireta para mim transmitida horas depois e que me provocou um nó na garganta pela coragem e esquecimento do orgulho naquele momento. Arrependido que estava também ele queria ter ido à manifestação, mas não deixei porque esta já não é a luta dele mas a minha, e não o queria cansar ou deixar com um desespero ainda maior por se envolver com questões que a vida já não lho deveria permitir. O tempo dele agora é de descanso e esquecimento e ignorância das preocupações.

Os dois anos do meu sobrinho, feitos três dias antes, e a festa de aniversário onde estavam outras crianças aumentaram o nervosismo. A vida delas preocupa-me mais do que a minha. Tenho noção desde pequena das travessuras da vida e dos caminhos tempestuosos que tenho pela frente, os meus pais nunca me esconderam isso. Também nunca imaginaram que tivesse um futuro tão distante e incógnito e alertaram-me inúmeras vezes para a escolha do curso de formação que não tinha empregabilidade e bem que se devem ter arrependido de me terem feito teimosa, e ensinado a seguir e lutar pelos sonhos.

Mas para muitos, nos tempos atuais, a primeira semana de casados dos meus pais é algo raro. Depois do casório modesto, a minha mãe foi à cidade comprar pratos, duas panelas, uns copos, talheres, toalhas de banho e o essecial para a casa nos primeiros dias. Quando chegou ao fim da jornada, olhou para os trocos e quase já não tinha moedas para voltar a casa. E ficaram sem dinheiro para o restante mês. Como se casaram a meados de junho e o pai já era funcionário público, eram apenas uns dias nada fáceis de respirar, mas que a horta ajudava a ultrapassar. Talvez esses dias tenham sido a lua de mel que idealizaram. E o meu pai tinha uma Vespa, e já depois da minha irmã nascer e ter comprado um carro ao desbarato (um Ford qualquer que comia gasolina segundo ele, e tinha as molas dos bancos a saltarem feitas pulgas assanhadas), para poupar gasolina ia e vinha da aldeia à cidade para o trabalho na mesma Vespa, fizesse sol ou chuva. A capa que o resguardava da chuva, o capacete e a Vespa ainda figuram lá em casa como recordações. Eles não contam isto muitas vezes, apenas quando o assunto vem à baila. Não porque tenham vergonha, pelo contrário, mas porque não querem que os mais novos imaginem as dificuldades por que passaram. Hoje têm muito, construído ao longo de 37 anos de casados, com alguns sonhos e conquistas, e sem nunca fugir aos seus deveres. É com orgulho que digo, e sei-o com toda a certeza, que o meu pai nunca fugiu aos impostos, nunca roubou, não foi corrupto ou enganou ninguém. Aliás, a verdade para ele é um bem essencial e a justiça completa-a! Tenho o sangue deles, e por isso acredito que também conseguirei passar por mais dificuldades se a vida assim mo exigir. Mas gostava de ter a oportunidade, e também a sorte, de construir uma família, uma casa, uma quinta, como eles o fizeram. Com alguns sacrifícios que eu e a minha irmã partilhavamos de forma compreensiva. Gostava hoje, gostarei amanhã, mas depois de amanhã não sei se o conseguirei.

Não quero abandonar Portugal em busca de salários mais chorudos e ter de prescindir de ver o crescimento dos meus sobrinhos, das lambidelas e do amor do meu cão que mesmo longe sinto-o aqui perto. Longe dos amigos e dos afectos, da minha cultura, do meu país, da minha língua. Quero renascer a minha esperança que parece perdida nestes tempos. Quero voltar a acreditar quando tudo à minha volta me pede para não o fazer. Prometo que irei tentar, lutar contra todos os descrentes, os que não sonham ou não acreditam. Não será fácil. Não estou num dia bom, amanhã será melhor talvez. Não me obriguem a sair daqui. Se tiver de fazer ainda mais sacrifícios, farei, mas não me peçam para compactuar com a pobreza do povo e a riqueza de alguns. Não quero ser rica, ter um BMW ou uma casa na praia. Quero construir uma vida à medida das minha capacidades, quero trabalhar, mais horas diárias se assim for preciso, mas quero trabalhar aqui e construir a minha vida aqui.

Não quero ter de olhar para os meus sobrinhos um dia e pedir-lhes desculpa pelo que não fiz para que eles não possam ter uma vida com sonhos e esperanças. O sentimento não é bom e nem quero imaginar que isso possa acontecer um dia. Não quero que ninguém lhes destrua os sonhos. Quero-os felizes, com adversidades na vida como é normal mas com esperança no dia seguinte. Pode ser?

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Sobreviver e em fúria

Hoje é o dia 11 de setembro. Passaram 11 anos desde a terrível tragédia que assolou a América e transformou o mundo num local de medo e morte. O mundo, essa coisa gigantesca! Em Portugal, um pequeno país ao lado do oceano Atlântico passa hoje por momentos revoltantes, em nome de um deficit, de pouca esperança, de medidas de empobrecimento de todos ou quase todos.

Em simples palavras, Portugal como um qualquer cidadão necessitou de pedir dinheiro emprestado há cerca de  um ano e uns meses, para conseguir subsistir. Os portugueses ficaram assustados mas ainda acreditaram que seria possível ultrapassar este mau momento. Todos temos maus momentos, e também os países e os que os governam passam por eles. Mas o problema não é assim tão complicado que a generalidade dos portugueses não tenham ainda entendido da forma mais simplista: necessitamos de pagar a dívida mas para isso precisamos de colocar a economia a andar, prestar apoio a empresas em risco de falência não aumentando o desemprego, criar empregos com medidas apelativas, deixar que as pessoas continuem a pagar as suas dívidas (a casa, o carro, a escola dos miúdos) e a construir uma vida. Ninguém quer desistir, mas muitos já o fizeram emigrando para outro país em busca de melhores oportunidades, de uma vida mais sustentável e de forma a amealhar algo para depois voltar ao país que não lhes deu condições para viver.

Viver era a minha palavra de ordem há uns tempos atrás, que entretanto foi substituída por outra menos valiosa: sobreviver. Trabalho fora da minha área de residência o que me obriga a ter de pagar casa (se tivesse em casa dos meus pais era tudo muito mais fácil), e ao longo de três anos adoptei duas gatas órfãs, a que se somou a terceira há cerca de 3 meses, que já fazem parte da minha família e das quais não quero e nem vou prescindir por muito que me custe. Poderia estar muito melhor se vivesse num quarto alugado ao invés de um apartamento, ou poderia até dividir um apartamento com alguém que suportasse ter animais em casa que acabam por não fazer asneiras mas que sujam sempre mais do que se não ocupassem um determinado lugar.

Além de sobreviver há outra palavra que ecoa na minha cabeça a cada dia que passa: fúria! Fúria por todos os sacrifícios que me são impostos quando trabalho arduamente no que gosto de fazer, mesmo com todos os sacrifícios. Não desperdiço nenhuma oportunidade para trabalhar e espero, ou esperava assim, construir o meu futuro. Agora tenho muitas dúvidas se tenho futuro, se existe um amanhã para além do hoje, se poderei um dia pensar em ter filhos, constituir uma família, ter ou pagar uma casa. Cumprir alguns dos meus sonhos que passam por pouco, uma semana no Gerês, recuperar a casa da quinta dos meus avós, constituir família, ter um cantinho para mim, proporcionar uma vida feliz aos meus pais que passa pela não-preocupação com a filha, ajudar os meus sobrinhos a ter um futuro risonho mesmo com a inércia que me é imposta. São coisas simples, julgo que não ambiciono nada que não seja plausível para qualquer ser humano com 31 anos.

Hoje não acredito que consiga nada disto. Nem amanhã nem depois nem nos próximos tempos. Talvez apenas com uma hipótese, que nunca coloquei e que sempre critiquei nos meus amigos: emigrar! Só de ouvir a palavra sinto os meus pais a estremecer como é natural, só de pensar na palavra imagino-me a deixar de fazer parte da vida de dezenas de pessoas que adoro. É uma decisão séria e que merece muito calculismo, mas é a minha única saída neste momento se quero viver e não continuar a sobreviver numa vida sem um futuro mais risonho.

Gostava de acordar amanhã com uma boa notícia, de que estes últimos dias tinham sido apenas um pesadelo para mim e para todos os portugueses. Que não passava de uma piada e que as verdadeiras medidas do orçamento de estado era o corte da despesa pública, impostos mais elevados para quem tem mais rendimentos, entre muitas outras medidas necessárias e plausíveis. Esperava que houvesse uma parceria entre todos nós, portugueses, que aqueles que estão a receber subsídios lutassem até ao tutano para não mais os receber, não prejudicando os outros, lutando diariamente por arranjar um qualquer emprego.

Estou triste, muito deprimida com o estado a que isto chegou. No meu próximo aniversário tenho a certeza de que faltará mais amigos que estão lá fora, como este ano já faltou. E no ano seguinte outros, ou talvez eu própria tenha de abandonar o país que tanto adoro e que os meus pais, os meus avós e trisavós tanto lutaram para o construir. Sinto-me em desespero e nunca pensei em chegar a este estado de sentimentos.