segunda-feira, 26 de outubro de 2015

as crianças. na praça.


Na praça onde trabalho há crianças. crianças que brincam no meio da erva a que chamam relva, na imundice deixada pelos adultos viciados em aditivos. naquela praça já não há pais que acompanham as crianças à escola, não há amparos nem preocupações. a chuva cai e, sozinhos na praça, acompanham-na até chegarem à soleira da porta de casa.
as crianças, na praça onde trabalho, vão para a escola sozinhas. acompanhadas pela mochila, o saco de pano que lhes acalenta os conhecimentos que eles querem assimilar. o mundo que habitam não lhes dá esperança para o que trazem, todos os dias, no saco de pano.
a praça onde trabalho é dividida por uma auto-estrada. de um lado há um mundo normal e do outro crianças sozinhas a deambular para a escola. os adultos vivem a sua anarquia em cada esquina. as caras tristes e sem sonhos, os olhos vazios, os cabelos desgrenhados ao sabor do vento e dos raios de sol que se soltam por entre as árvores. a praça onde grassam vícios no chão. onde nem sempre o vento os some para as valetas.
as crianças da praça vão para a escola sozinhas ou com amigos. no silêncio da praça que gravita entre as árvores como que a extrair a esperança de sorrirem um dia com pureza e realismo. as crianças absorvem os seus direitos a cada passo solitário. as folham contam histórias de heróis que mudaram o mundo. esses também seguiam para a escola sozinhos.
aquelas crianças, naquela praça onde trabalho, foram despejadas no mundo sozinhas. com os pensamentos. naquelas crianças habitam sonhos. muitos entraves os irão impedir no amanhã. a eles e a nós que os vemos. o sonho é algo que se desvanece rapidamente. como um sopro. um fechar de olhos.
as crianças que vão para a escola sozinhas na praça serão as crianças do futuro. aqueles que lutarão nas fileiras da justiça, acompanhados por outros que viveram rodeados de solidão que se soltaram de outras praças, ruas e vielas.

Ansiedade, a amiga do equilíbrio

A bolha rebentou, segundo dizem...
Acordei há uns dias sem equilíbrio, não mental mas físico mesmo. Tonturas, vertigens, tudo ao molho e fé na hora em que estaria e sentiria os pés bem assentes na terra. Isso não aconteceu tão cedo e tive de ficar em casa de molho, dormir horas e horas com um cansaço inimaginável. E a ida ao médico veio a seguir. Cansaço, stress, ansiedade. Sempre a ansiedade segundo eles ditam. Nunca ouvi uma história em que alguém tem tonturas e vertigens devido ao cansaço e ansiedade, mas o corpo é que manda e os médicos estudaram anos e anos para alguma coisa, pelo menos gosto de pensar assim.
Solução: entreter-me com algo. Colocar cá para fora os projetos que tenho no meu imaginário, fazer desporto (ontem foram 12 km que me deixaram com umas dores que me fazem andar tipo pata seca), ter um pensamento mais positivo (a vida também não está assim tão má, caramba!), fazer aquilo que mais gosto (já tenho um puzzle e um livro iniciados e à espera que vá ter com eles..."só mais um bocadinho, amigos!"). Simples, não? Parece... até poderia dizer ao cérebro: "já chega de pensar nisso! Vamos agora regar as plantas e semear nabiças!", mas e se ele não me obedecer? Bato-lhe? Já pensei em ter conversas com ele como se ele fosse o meu amigo imaginário - mas não é ele o meu amigo imaginário na realidade? - para pensar noutras coisas, desanuviar, sair deste mundo e ir para outro onde as expetativas são mera opção de vida.
A questão é bem mais complicada do que isso. Além do coração que é o tipo que nos mantém aqui, resistentes enquanto ele acha que merecemos isso, o cérebro é o gajo que domina a cena. Não podemos pensar em dominar o que quer que seja, se o tipo decide que não lhe apetece dominar porque não está para aí virado. E aqui só nos resta viver com ele, ir tentando moldá-lo ligeiramente a cada dia que passa que o gajo é chato e teimoso e nem sempre é fácil que ele faça o que nós queremos.
O que fazer? De imediato não podemos fazer nada. Tentar contornar o problema, controlar a ansiedade, ter respeito por ela, senti-la mas não ter medo dela. Ela sabe que nos pode dominar e fá-lo sem rodeios nem ansiedades. O Pilates, o Yoga, a Natação, as pessoas, um abraço, um beijo podem ajudar mas sentir ansiedade, viver com ela e saber viver com ela não é o mais fácil do mundo. Resta-nos respirar fundo e esperar que amanhã ela não nos desperte medos. Que esteja connosco como sempre esteve mas a caminhar ao nosso lado, sem interferir com a nossa vida. Obrigada amiga ansiedade.