A Clarinha







Esta é a Clarinha. Morreu ontem. Leshmaniose. Apanhei-a à porta da minha faculdade num qualquer dia, dum qualquer ano, ao final da tarde depois de ter feito o meu último exame do ano. Estava a comer bolachas e ela veio ter comigo, dei-lhe uma e ela comeu-a velozmente como se não visse comida há séculos. Saquei da garrafa de água e dei-lhe pela minha mão. Lambeu até não haver mais. Estava magra, muito magra, anoréctica mesmo. Não me largou a partir daquele momento, à minha pessoa fisicamente e ao meu coração que se partiu ao ver um ser tão lindo abandonado à má sorte. Estava “perigosa”, tinha imensas carraças espalhadas pelo seu corpo ossudo, e pulgas que saltavam quando lhe mexia no pêlo. Mas não tive medo. Senti que o meu futuro estava dentro do futuro dela. E levei-a para casa.

Quando cheguei o meu pai quase teve um ataque cardíaco. A regra era simples: só podíamos ter um cão, e o Pataco já existia na altura. Mas disse-lhe, sem medos, e com calma, que agora já não havia nada a fazer. Deu-me três semanas para encontrar um dono para a Clarinha. Acedi porque sabia que não o podia convencer do contrário (a teimosia corre-nos no sangue). Dei-lhe comida, um banho decente que lhe tirasse todos os bichos que a estavam a comer, e sorri quando a vi correr sem parar, sorrir. Sim, os animais também sorriem. Estava feliz. Tinha finalmente encontrado uma casa e alguém que a amava.

No dia seguinte coloquei anúncios em todos os websites de animais abandonados que conhecia. Contactei associações para saber se ela podia lá ficar, só como residência e eu pagava e tratava do resto. As respostas ora eram negativas ora simplesmente não apareciam. Desesperei.


Os dias foram passando. Ela emana alegria por todo o lado. Passava o dia a brincar, a saltar, a roubar sapatos e tudo o que encontrava e a esconder debaixo de uma árvore. Os objectos roubados ficavam sempre no mesmo sítio. Mas não surgia um dono, alguém que a amasse tanto como eu, que a quisesse fazer feliz tanto como eu. Pensei em levá-la para a quinta do meu avô e arranjar-lhe um abrigo por lá, mas não fui feliz na minha ideia porque teria de lá ir todos os dias e não tinha carro próprio na altura, e o meu pai não acedeu.

O meu pai fingia não gostar dela, ignorava-a quando ela lhe aparecia à frente aos saltos, a pedir brincadeira e atenção. Não se queria afeiçoar. Mas às escondidas brincava com ela, e no fundo gostava dela, apenas tinha medo de a perder e preferiu não se afeiçoar. E passadas as três semanas, toda eu espelhava medo do dia em que ele me ia perguntar quando eu ia cumprir o nosso acordo: ou arranjava um dono ou ia levá-la ao canil. Mas ele não disse nada. Nem ele tinha coragem de fazer isso a um animal tão especial como a Clarinha.


Um dia falei com um amigo, que nunca me tinha passado pela cabeça que quisesse um cão até porque ele estava e ainda está a trabalhar em Lisboa. Mas contei-lhe do meu problema, e ele disse que talvez a mãe não se importasse de ficar com ela. Na manhã seguinte veio a boa notícia: a Clarinha tinha arranjado uma dona, que adorava animais e, tenho a certeza, a tratou muito bem durante todos estes anos. Eu não teria feito melhor.

Agora a Clarinha está morta. Apenas a fui ver a casa dela uma vez, e tantas outras vezes o meu colega perguntou quando voltava e havia sempre coisas que me empatavam. E quantas vezes pensei nela, e desejei voltar a vê-la, com toda a sua genica, com os seus olhos, os mais lindos do mundo. Tenho mesmo muita pena, sinto-me mesmo muito triste pelo que aconteceu, de tal forma que nem sei que mais dizer...apenas que adorava a Clarinha. Ela era especial, muito! Pena que quem a tenha abandonado não se tenha apercebido disso...

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