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Ele, o mar

Hoje fui, como habitual, de calças e sapatilhas, mp3 e phones, até à praia, andar e correr ao sabor de uma respiração pesarosa. Queria estar naquele sítio, na praia, junto ao mar que saltava por cima das ondas como enfurecido, que espumava como se estivesse aborrecido com alguma coisa. Não havia vento, nem brisa, apenas um ar quente agradável. Passei pela casa dos meus sonhos, que tem uma piscina no telhado, janelas quadradas e é simplesmente a casa mais linda do mundo. Um dia tenho de tirar umas fotografias para compreenderem. Corri, andei quando o fôlego já não aguentava mais os saltos acelerados dos pés. Andei ainda mais, vi muita gente, muitos cães, houve um que me preferiu a mim aos donos, de tal forma que ainda veio a correr atrás de mim uns metros, até que o chamaram.

Apesar de já ir para a zona há muito tempo, hoje parecia diferente, tinha um ar misterioso, as pessoas eram estranhas, excepto aquela senhora que nas suas duas muletas tenta caminhar, passo a passo, juntamente com o filho que não a larga um momento. E todos os dias os vejo e mais ou menos no mesmo local. Fez-me lembrar a minha avó e no que ela devia ter feito há uns meses atrás, para não ficar na situação actual. O meu olhar deambulava por um sitio conhecido mas, simultaneamente, desconhecido. Precisava de parar para pensar e depois de uma corrida não resisti ao mar turbulento, e fui molhar os pés. A água estava hiper-mega fria mas soube-me a deuses. As ondas bateram uma, duas, três, muitas vezes nas minhas pernas e parecia que nunca me satisfaziam. Já sentia os pés a ficarem frios mas não resisti a levar mais umas ondas fortes nas pernas, arregacei mais as calças e lá fui eu. O mar é algo de maravilhoso, de mágico, que nos traz uma paz misteriosa que sai de um sítio desconhecido.

No caminho de volta para o carro, entrei novamente na praia e estava alguém na água. Inicialmente pensei que fosse um bodyboard qualquer mas depois percebi que era um surfista. Sentei-me numa pedra e fiquei a ouvir músicas bonitas a olhar para o surfista que não teve muita sorte com as ondas que apenas o deixaram bailar em cima delas, por duas vezes. Olhei o pôr-do-sol, chegou um fotógrafo para postar para sempre o momento, e de seguida outro. E também memorizei o momento para a eternidade. Pensei em tanta coisa, presente, passado, futuro, coisas que nem sequer valem a pena serem pensadas, apenas junto ao mar porque ali todos os pesadelos são transformados em sonhos ou esperanças. Ali tudo tem uma magia diferente. Tudo é importante. Não consigo viver sem ele, não há hipótese, já estou demasiado viciada no seu humor, uns dias mais brando do que outros. Quero cada vez viver mais perto dele, apesar de estar suficientemente perto, para o sentir a todas as horas do mundo.

P.S.: E hoje os sentimentos eram tão puros que nem sequer olhei para as barracas cor de laranja e verde fluorescente. Olhei mas já não significaram nada para mim. Apenas um areal preenchido por cores bonitas, e ao fundo, ele, o mar.

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