terça-feira, 30 de junho de 2009

Liberdade ou exagero?

Afinal há mais quem penso o que não me farto de apregoar desde há bastante tempo. Cansada de ver o que vejo, ouvir o que ouço e, por vezes, ler o que leio. Há uma entidade responsável por isto mas que gosta de estar calada e não impôr os limites que me impõem a mim, humilde trabalhadora, a outros mais conhecidos. Fica a entrevista de Emídio Rangel ao Jornal de Notícias de há uns dias atrás:

"Amado por muitos, odiado talvez por mais, que a liberdade tem preço - e é alto. Emídio Rangel, 62 anos, diz ser uma espécie de homem maldito. Como os poetas: desobedece para vingar a moral.

Esta semana estourou mais uma polémica nas mãos de José Sócrates: ter-se tornado pública a intenção da Portugal Telecom (PT) adquirir 30% do grupo espanhol Prisa, que detém a TVI. O governo tentou nacionalizar aquela estação?
Não, claro que não. Tanto quanto se sabe - e ainda não se sabe tudo -, foi há já muito tempo encarada a hipótese de a PT poder comprar uma participação de 30% à Prisa. A questão foi colocada pela Prisa às autoridades nacionais, tal como quando esse grupo espanhol veio para Portugal também colocou a questão da sua vinda aos governantes portugueses. Mas são os órgãos decisores da PT quem tem travado essa discussão com os responsáveis da TVI. Agora, estão a pretender misturar uma coisa com a outra, uma conversa tida em Janeiro com uma discussão tida este mês, como se porventura uma e outra fossem a mesma coisa. Isto é manipulação de informação, querem intoxicar a opinião pública.

Refere-se à manchete do Expresso desta semana, que diz que o Governo já conhecia o negócio PT/TVI desde o início do ano?
Exactamente. É manipulação de informação. De resto, isso é uma coisa em que o Expresso é useiro e vezeiro. O assunto foi falado em Janeiro por iniciativa da própria Prisa, mas de Janeiro até aqui já passou algum tempo. Agora, aconteceu uma discussão secreta, uma avaliação da situação por parte da PT e da Prisa, mas da qual não resultou qualquer conclusão, não foram tomadas decisões, não chegaram sequer a acordo sobre um valor, um preço. Mas quando se pretende ser manipulador e sensacionalista, e jogar a favor de outros objectivos, evidentemente que não custa nada fazer esta manchete.

Portanto, acredita que José Sócrates não estava mesmo a par da recta final do negócio?
Esta recta final não é final. O assunto foi abordado sem nenhuma consequência. Não se chegou a acordo, não houve uma plataforma, um esboço de negócio, nada. Agora, os assuntos podem ser discutidos, todos os negócios podem ser postos em cima da mesa e debatidos entre duas entidades para avaliar o seu interesse.

Mas muitos consideram que seria mais um assunto político do que um negócio. Para si, ele fazia sentido do ponto de vista estritamente económico?
É indiscutível que para a PT tem toda a importância aquela participação minoritária. Não sei como pode haver tanta especulação, porque é óbvio que uma participação minoritária não dará nunca, em lugar nenhum do mundo, direito a que esse parceiro tenha capacidade de inverter a vontade da maioria. Do outro lado estão 70%; deste lado, eventualmente, estariam 30%. Portanto, a Prisa, que é um dos maiores grupos europeus a nível da comunicação, ia deixar-se enganar por quem tem 30%? E eram esses 30% a subsituiur o director geral, a alterar a linha editorial? Não faz sentido. De resto, o Henrique Granadeiro e o próprio Zeinal Bava vieram a público explicar isso.

Não acha que ambos traíram a confiança política do Governo?
Acho que não. No fundo, o Governo tem capacidade de decisão, mas é só em última instância. Se de cada vez que a PT tem que produzir uma negociação ou inicar uma discussão com quem quer que seja, em Portugal, nos EUA, ou em África, onde está bastante implantada, se de cada vez que tivesse de tomar uma decisão fosse a correr para o Governo perguntar o que ele acha, evidentemente que a PT seria uma empresa minguada, sem nenhuma capacidade de acção, ou de fazer o que quer que fosse. A PT tem os seus órgãos próprios, além de comissão executiva presidida por Zeinal Bava, e o conselho de administração presidido pelo Henrique Granadeiro. São eles que, em primeira instância, tomam as decisões da PT.

Mas o Estado tem sempre a golden share, que lhe confere poderes acrescidos...
Mas é em última instância, em questões extraordinariamente marcadas por um vínculo estratégico. Aí, o Estado pode eventualmente usar a sua golden share para travar um negócio. Mas só na parte final, depois de tudo estar decidido. Ninguém vai imaginar que uma empresa como a PT, que está cotada em bolsa em Portugal e em Nova Iorque, que é a mais exigente praça mundial a esse nível, que uma empresa desse género funcione desse modo. Ninguém vai acreditar que a PT, que é uma empresa internacional, que exerce a sua actividade em muitos países, possa estar manietada ou ficar à espera dos recados do Governo para poder agir. É um absurdo completo! Querem atirar areia para os olhos das pessoas. É evidente que a PT faz os seus negócios, as suas acções, e só se porventura for uma questão eminentemente estratégica, que conflitue com interesses primoridiais do país, é que o governo pode travar isso. Tirando isso, o Governo não tem participação em nenhuma estrutura activa da PT. É manipulação, manipulação, manipulação!

Mas não é, aparentemente, isso que está em causa: um conflito de interesses? De resto, foi o Emídio Rangel quem escreveu que “a inaptidão do PS para gerir a comunicação social é conhecida desde Abril de 1974....”
Sim, mas isto não tem nada que ver com Comunicação Social; isto é um negócio. A PT sabe qual é a importância deste negócio para a sua plataforma, está em concorrência directa com a proprietária da ZON TV Cabo, que é a maior plataforma que temos no país, sabe que só se desenvolve se tiver do seu lado uma estação de televisão e sobretudo uma estação com capacidade de produção de conteúdos, como é o caso da TVI. Não é o caso da SIC, que está num estado lastimável, feita em bocados, no chão, de rastos. Agora, isto não tem nada que ver com a Comunicação Social. Quando critico - e mantenho todas as minhas críticas ao PS em relação à gestão da Comunicação Social -, tem que ver com aquilo que se passa com as entidades reguladoras, tem que ver com aquilo que, de certa forma, faz o ministro da tutela [Augusto Santos Silva], que é absolutamente inapto para decidir estas matérias, tem que ver com um conjunto planeado de leis e de normas que são inaceitáveis. As minhas críticas mantêm-se todas de pé e nada disso tem que ver com este negócio de conteúdos da PT.

Mas depois de tudo o que José Sócrates disse sobre a TVI, repetidas vezes, não seria de facto, como tem sido dito, muita ingenuidade política não prever um terrível impacto na opinião pública?
Não sei o que as pessoas pensam; sei que as pessoas são induzidas a pensar determinadas coisas. Hoje, claramente, José Sócrates não tem a Comunicação Social do seu lado. É vergastado pela generalidade da Comunicação Social todos os dias. Mas também não misturo uma coisa com a outra. Estou totalmente de acordo com as críticas que José Sócrates fez ao Jornal Nacional de sexta-feira, conduzido por Manuela Moura Guedes. Totalmente de acordo! E qualquer jornalista que tenha dois centímetro de massa cinzenta, olha para aquilo e para o seu código deontológico, e vê como aquilo é um atropelo permanente do que é o jornalismo. Só que agora, nos tempos que passam, vale tudo no jornalismo. Mas para mim não vale tudo. Ali, à sexta-feira, fazem-se as maiores barbaridades. E não foi só com o Sócrates. O bastonário da ordem dos advogados [Marinho Pinto] teve que explodir depois de ser mal tratado. E isso é frequente. Qualquer jornal daqueles à sexta-feira é assim: fazem-se processos de intenções, ouve-se só uma das partes, há opinião misturada com notícias... Enfim, aquilo é tudo o que se não deve fazer em jornalismo. Sou professor da Universidade Nova e digo sempre aos meus alunos que uma boa forma de saberem o que não é jornalismo é verem o Jornal Nacional da TVI à sexta-feira.

Isso faz de José Eduardo Moniz o verdadeiro líder da Oposição?
Evidentemente, não vou comprar coisas que não são comparáveis. Ele dirige uma estação de televisão, que é líder de mercado, e tem necessariamente o peso e o resultado dessa realidade. Ele até pode interferir na solução A ou B, mas, independentemente disso, não vou misturar a acção política dos líderes dos partidos com a acção de um director geral de uma estação de televisão ou com a acção do director do Expresso...

Ou do Público...
Sim, ou do Público. Mas que é sistemático, é. Há, de facto, hoje, a oposição da Comunicação Social em geral a José Sócrates.

Em que momento é que José Sócrates perdeu a Comunicação Social?
Quando perdeu o seu estado de graça como governante e quando hostilizou, de certo modo, uma parte dessa Comunicação Social. É indiscutível. Ele fê-lo - e fê-lo mal, não o devia ter feito. Mas no caso da TVI, percebo inteiramente aquela explosão, aquela manifestação explícita de alguém que sabe e que sente – e quem não se sente não é filho de boa gente. Aquele serviço é uma vergonha e não tem respeito nenhum pelas regras éticas e deontológicas que os jornalistas deveriam respeitar em qualquer circunstância.

Esta sucessão de casos polémicos – Independente, Freeport, etc - poderão custra a vitória ao PS nas próximas eleições legislativas?
Não sei. De facto, não vou minimizar a importância dos órgãos de Comunicação Social, que têm importância na formação de uma certa opinião pública. O drama não são aqueles que lêem jornais; aqueles que os lêem, e ouvem as rádios e vêem televisão, e se interessam realmente pelos assuntos, em pouco tempo acabam por fazer um ponto da situação: distinguem as verdades das mentiras, verificam quem manipula e quem não manipula, etc. O drama é que, em Portugal, a Comunicação Social não chega a muita gente. E a maior parte do eleitorado não lê, infelizmente, jornais. Portanto, o que funciona é esta onda dos títulos especulativos e manipuladores. Aquele título [do Expresso] fica a ribombar e tem claramente influência na opinião pública. Até que ponto isto pode alterar o resultado das eleições, não sei. Até porque lembro-me perfeitamente de Cavaco Silva ter ganho as eleições numa altura em que, tal como Sócrates, estava com a Comunicação Social toda contra ele, todos os dias. E não foi a Comuncação Social que o impediu de ganhar. Não sei o que acontecerá agora, não tenho jeito para adivinhar o futuro nem tenho uma bola de cristal.

Pela primeira vez, desde as europeias, uma sondagem (da Marktest para o Semanário Económico), dá ligeira vantagem ao PSD (35,8% contra 34,5%), partido cuja líder, escreveu, “não gosta de comícos nem de debates nem de política”. Mas os portugueses, se calhar, começam a gostar dela, ou não?
Acho francamente que até hoje a dra. Manuela Ferreira Leite ainda não disse – e vamos saber hoje quando são as eleições legislativas [entrevista realizada de manhã, antes de Cavaco Silva ter anunciado eleições legislativas para 27 de Setembro] – o que quer fazer no país. Sabemos que ela tem umas ideias muito liberais, que lhe interessa privatizar quase todo o ensino e quase toda a saúde, o que que seria, nas condições em que o país se encontra, do ponto de vista económico, uma verdadeira tragédia, mas enfim. Como é que os portugueses podem confiar a governação do país a uma líder política que não diz o que quer fazer, qual o rumo que vai seguir, o que pretende fazer em relação às coisas mais importantes e mais decisivas. Fala sempre do TGV e do aeroporto, mas há muitas mais coisas, a vida do país não se esgota no TGV nem no aeroporto. E mesmo isso é importantíssimo para desenvolver um país periférico como é Portugal.

O que distingue os dois líderes dos partidos que poderão formar governo?
Os portugueses têm que olhar para um e para outro líder, para as características de um e de outro, Sócrates e Ferreira Leite, e verificar, não a onda de simpatia, que Manuela Ferreira Leite agora é exaltada na comunicação social como se tivesse qualidades extraordinárias, mas o que cada um já fez e quer fazer. Ela já esteve no Governo, nunca resolveu questão nenhuma, esteve na educação e não propôs uma única reforma, e no fim deixou o país com um défice elevadíssimo. As pessoas sabem o que ela já fez; não sabem o que ela quer fazer com o país, porque ela não anunciou rigorosamente nada. As pessoas, quando chegar a hora exacta, vão ter que decidir entre Sócrates, com as suas qualidades e defeitos, e uma pessoa que não apresenta propostas, nem anuncia o dia em que irá fazê-lo.

É naturalmente um defensor de Sócrates, tanto mais que são amigos. Porque razão decidiu deixar de lhe falar?
Não foi bem deixar de lhe falar; não tenho relações nenhumas com ele desde que ele assumiu funções no governo como primeiro-ministro. Encontrámo-nos só uma ou duas vezes.

Mas porquê? Porque é que não pode continuar a relacionar-se com ele enquanto José Sócrates for primeiro-ministro do país?
Quem não pertence a nenhum partido, nem pretende tirar partido de nenhuma natureza, quem tem a posição que eu tenho, é muito livre. É sempre a minha posição que vinga, quer quando defendo José Sócrates, quer quando ataco o Governo. Não tenho telhados de vidro, francamente! Não recebo recados do primeiro-ministro ou de quem quer que seja para defender A, B ou C. Escrevo o que quero e o que me apetece. Portanto, sinto-me muito confortável nesta posição distanciada. Dou-lhe [a Sócrates] também uma abertura total para que faça o que quiser como entender. E percebo-o, porque ele é, no momento actual, e apesar de algumas coisas mal feitas e de algumas trapalhadas, uma pessoa com enorme coragem, que realizou reformas, que trabalhou incansavelmente em situações extremamente difíceis e com ele o país efectivamente avançou alguma coisa. É por isso que o defendo. Se não fosse assim, não o defenderia. Quando lá esteve o engenheiro António Guterres, que é uma pessoa que considero, por quem tenho o maior respeito e a maior consideração, mas a minha posição era contra a forma como governava o país. Pois bem, escrevo com liberdade: quer quando critico, quer quando elogio. Não ando ao serviço de ninguém, sou um ser isolado que escreve o que pensa e como entende.

É por causa dessa sua liberdade que foi banido da SIC e saneado na RTP?
Sabe, esta liberdade tem mesmo um preço – e é elevado. Sou uma espécie de homem maldito neste contexto, porque não sou ligado a nenhum partido político. Sou um homem da esquerda democrática, mas não hipoteco o meu voto nem a minha sensibilidade a coisa nenhuma. Costumo agir de acordo com a análise que faço, de acordo com a maneira como vejo as coisas, e sempre com frontalidade. Não ando a dizer as coisas com rodriguinhos com aqueles “Sim, mas...”, não tenho posições dúbias. Quando gosto gosto; quando não gosto não gosto - e digo-o explicitamente. Esta maneira de ser tem um preço elevado e eu pago-o.
Esse preço é terem-no privado de fazer aquilo que porventura melhor sabe [a TSF e a SIC são produtos seus] e mais gosta de fazer?
Provavelmente, sim. Não me apresentei a ninguém para realizar nenhuma dessas tarefas, sempre soube encontrar os meus caminhos. Hoje, sou professor universitário, dou aulas a alunos de mestrado, escrevo nos jornais, participo num debate na televisão [Discurso Directo, na RTP N], realizo projectos, até mais para fora do país, onde por incrível que pareça os méritos do meu conhecimento e da minha actuação são mais reconhecidos do que dentro do país. Tenho feito projectos de Televisão e de Rádio para vários países do mundo.

Se Francisco Balsemão, apesar das relações cortadas, lhe pedisse para voltar à Sic, pensava duas vezes?
Há um contencioso. Quando me despedi do dr. Balsemão, ele estava muito emocionado e disse-me: “Ó Emídio, não se esqueça que não fui eu que o pus fora da Sic; foi você que se demitiu e quis sair”. É completamente verdade. Mas falta um pequeno detalhe: ele julgou que poderia levar por diante uma estratégia em que eu ainda seria mais promovido dentro da Sic, mas que permitiria que se fizesse uma coisa com a qual não estive de acordo, e que foi o despedimento anunciado por ele próprio de 200 pessoas. E mais umas tropelias que foram feitas por alguns seres menores da estação. Essa é que é a questão importante. Por dinheiro nenhum do mundo faria qualquer coisa sem que isso estivesse completamente ultrapassado. Depois, também não sou o santo milagreiro, a Sic só se recupera com uma valorização de competências, com a reorganização da equipa, e com dinheiro. E a Sic não está nessa situação. O dr. Balsemão tem uma prática, que não foi exercitada enquanto eu lá estive, porque me opus a ela. E que é isto: se ele tiver um bom jornalista a ganhar 1500 contos, não se importa que ele saia para o substituir por um que ganha 500, porque poupará mil contos. É esta contabilidade que está em uso desde que saí na Sic. Para mim, esta estratégia não é válida. A Televisão e os meios de Comunicação Social em geral valem pelas pessoas, elas são mais importante do que as máquinas, são decisivas. Por isso, é nas pessoas que têm competência e validade que se deve investir; não nas máquinas.

Hoje, quando olha para trás, o que sente quando encara o desvirtuamento dos projectos que criou, como a TSF e a Sic?
Sinto, em primeiro lugar, que cumpri bem a minha missão. A TSF é praticamente a única rádio de informação que sobreviveu. E era uma rádio que, ainda há bem pouco tempo, dava lucro. Era um projecto viável e importantíssimo para o país. Apesar da dispersão, às vezes, de uma linha que é fundamental no formato da TSF e que não poderia ser tocada. Mas isso é outra questão. A Sic mostrou – e foram 10 anos – que era um case-study a nível mundial. Eu recebia todas as semanas pessoas que vinham de todos os países do mundo para perceber qual era a nossa fórmula, como é que nós conseguíamos ter tanto êxito e tanto êxito comercial, o que significava muito dinheiro. A Sic ganhou muito dinheiro enquanto lá estive - agora só perde. Mesmo a Sic Notícias, que é um projecto meu - fui eu que o propus à administração do dr. Balsemão e o pus de pé - mesmo esse foi sempre um projecto bem sucedido. Sinto orgulho por isso. E sinto mágoa quando os vejo a desfazerem-se por decisões pequeninas, por visões muito atabalhoadas, pouco profissionais, e que tem causado muitos danos à Sic.

A Sic é irrecuperável?
É cada vez mais difícil, mas para mim não existem praticamente impossíveis. A Sic, se reunisse as condições que há pouco referenciei – e podia detalhar – é evidente que seria recuperável. A Sic deixou-se ir caindo, foi caindo sucessivamente, desde que saí não parou de cair. Agora está no chão.

Fez mais amigos ou inimigos na televisão?
Não sou uma pessoa neutra, provoco rejeições e adesões. Mas não há semana nenhuma em que não receba telefonemas das pessoas que iniciram o seu trabalho na Sic comigo. Telefonam-me frequentemente. Mesmo as pessoas da RTP - e só lá estive dez meses -, telefonam. São pessoas a quem ensinei a dar os primeiros passos, e que estão hoje a dirigir a própria RTP. Tenho muitos amigos, pessoas que se eu dissesse: “Vamos iniciar um projecto A ou B”, estariam ao meu lado imediatamente, não tenho dúvidas. Mas esta minha atitude, este meu carácter (que não posso alterar), e que me leva a dizer as coisas na cara das pessoas, com coragem e com frontalidade, mas depois também a ser profundo amigo das pessoas que trabalham comigo, dando o corpo às balas sempre que necessário pelas minhas equipas, gera inimizades fortes, mas também gera muitos amigos.
Esses telefonemas atenuam ou inflamam as saudades que possa eventualmente sentir desses tempos?
Com franqueza, não vivo angustiado por causa dessas matérias. Não vivo infeliz. Vivo completamente realizado desse ponto de vista. No dia a seguir a ter conseguido um sucesso, já não penso nele. E um mês depois, já nem me lembro dele. Porque já estou a trabalhar no seguinte. Se a minha vida não foi pela via A, foi pela B. Houve um momento, depois de ter saído da Sic, em que todas as portas ficaram fechadas para mim. Muito bem, aceitei. Fui dar aulas, que é uma coisa que gosto muito de fazer, já o tinha feito antes. Hoje, dou aulas na universidade, o que me dá muito gozo, e estou a escrever alguma coisa que há-de sair por aí um dia destes. Faço coisas que me dão enorme satisfação intelectual e muito prazer. Sou um optimista, sabe? Encontro sempre um caminho para a realização profissional. Porque há sempre mais do que um caminho. Mas tenho muito apreço pelas pessoas que me telefonam. Almoçamos frequentamente, jantamos, vamos mantendo a ligação e a amizade. Aliás, é incrível, porque todas as semanas me dizem que corre o boato de que vou para aqui ou para ali.

Ainda nenhum desse boatos se concretizou. É por ser um homem caro?
O dinheiro nunca ditou os caminhos da minha vida, com franqueza. Os projectos, sim, A exigência que ponho nas condições de que preciso para realizar um projecto, nisso sim, sou absolutamente exigente. Mas também, até hoje, nunca falhei nenhum projecto. Nunca! Isto é uma coisa que se faz de detalhes, é preciso reunir as condições todas. Depois, evidentemente, também gosto de ser devidamente considerado e remunerado em função do que faço. Mas fui para Sic sem dicutir sequer o meu salário. Depois, deixei claro ao dr. Balsemão que no dia em que a Sic vencesse, ele teria que me pagar devidamente. Evidentemente, pagou-me de acordo com os resultados lhe dei.
Há uma série de frases a que estará sempre inevitavelmente associado. Uma delas...
...É a do presidente... [risos]

Tal e qual: “É tão fácil vender um presidente como um sabonete”...
Já estou conformado com a ideia de que isso acompanhar-me-á até à morte, muito embora essa frase não seja rigorosa, não foi bem isso que eu disse. O que eu disse é que havia uma estação que tinha 50 pontos de share tinha uma enorme probabilidade de expor até ao âmago qualquer coisa e que, nesse contexto, a coisa venderia, interessaria, atrairia a atenção das pessoas. Usei o verbo usar neste sentido que expliquei, sentido que é muitas vezes usado pelos jornalistas. Depois, a frase foi retirada do contexto e ficou para sempre como um negócio de venda.
De qualquer forma, o que lhe queria perguntar, mesmo substituindo o verbo vender, é se prescindiria, se trocaria, o actual Presidente da República, Cavaco Silva?
Não. O Presidente da República é uma pessoa que está legitimamente a cumprir a sua função, eleito com o voto maioritário dos portugueses, voto directo e expresso. Tem não só toda a legitimidade como sempre teve a minha atenção, o meu empenho e o meu total respeito. Sempre foi assim, sempre disse, de forma explicita, o que pensava dele e sempre o elogiei pela sua acção, pela forma como faz o seu trabalho.

Isso vale também para as mais recentes intervenções dele?
Pois, confesso que ultimamente não tenho gostado de ver o Presidente da República. Em vez de ter um exercício de magistratura de influência nas coisas do dia-a.dia, está a ser muito interveniente. Não faz sentido que seja um protagonista político do dia-a-dia, como o são os líderes partidários. Francamente, é uma coisa que me desagrada bastante.
No caso concreto do negócio PT/TVI, acha que ele esteve bem?
Não, esteve bastante mal. Mesmo antes, quando falou da data para as eleições legislativas, citando uma sondagem que não conheço, e que ainda não ouvi ninguém dizer que conhece, esteve mal. Devia ser mais cuidadoso a esse respeito e sobre essa matéria concreta, devia fazer o que já fez noutros casos. Dizer: “Esse assunto não é para ser discutido agora. Informarei os senhores jornalistas na altura própria e com os fundamentos que presidem à minha actuação”. Do meu ponto de vista, era assim. Também não vejo com bons olhos a intervenção nesta questão do negócio de empresas privadas, parece-me extemporâneo, precipitado. Não consigo entender. Há qualquer coisa que ainda não entendi, mas que mudou na atitude e no comportamento do Presidente da República.

Ter-se-á Cavaco Silva deixado entusiasmar com a ideia de Manuela Ferreira Leite, uma amiga, poder ser primeira-ministra?
Manuela Ferreira Leite é um produto de Cavaco Silva, foi ele que a exultou e que implorou para que ela assumisse a liderança do PSD, quando isso estava longe dos seus mais recônditos propósitos. Não sei se, por isso mesmo, vejo o Presidente da República tão interessado em intervir, quando o papel dele deve ser de neutralidade em matérias politico-partidárias. E não gostaria que assim continuasse, porque ele sempre actuou com enorme rigor, com enorme isenção, e não vejo porque há-de alterar isso, esse comportamento que o dignifica aos olhos dos portugueses. Ele até pode teorizar, ajudar, dar opinião sobre o caminho económico que as empresas devem presseguir, a isso chama-se magistratura de influência. Mas tenho a certeza de que se Cavaco Silva continuar no estilo de imiscuir-se em coisas da governação, ou da vida das empresas – como agora, a meter-se num negócio cujos detalhes não se conhecem ainda na totalidade, e ele decide intervir sem sequer ter pedido uma explicação ao primeiro-ministro -, se ele continuar a fazer isso como rotina, vai ver de que maneira o povo português o qualifica.

Fora de tudo o que falámos até aqui. Morreu Michael Jackson, rei da Pop. É sensível ao desaparecimento dos ícones que marcaram uma geração?
Sou, completamente. Ele era um génio, por mais boatos que tenham aparecido, também esses sem nunca terem sido confirmados. Ele é um ícone, um valor indestrutível da musica pop e que nunca se apagará no tempo.

Alguma vez dançou o “Moonwalk”?
[Risos] Muitas vezes, gosto muito de dançar. Nasci em África e quem nasce em África gosta de dançar.

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