segunda-feira, 26 de março de 2007

Uma consciência

Ontem estive acordada até à 1.30h da manhã para presenciar em directo, porque não ia aguentar esperar pelo dia seguinte, à final do concurso "Os Grandes Portugueses". Considerei o programa aborrecido, só interessante quando Odete Santos intervinha e também quando falaram na possível homossexualidade de Fernando Pessoa. Esses foram os únicos momentos engraçados!

No fim-de-semana "choveram" notícias de que António de Oliveira Salazar iria vencer o programa. Não quis acreditar! Achei que não era possível, e nos momentos em que pensei que talvez o fosse, considerei que só o seria por uma distância muito pequena. Uns míseros pontos, acreditava eu! E com esta noção estive sentada, à lareira, porque sou friorenta e estava frio, a ver aquele programa aborrecido. Confesso que, muitas vezes, o zapping era uma constante.

Finalmente os "resultados foram auditados" e surgiu a tabela dos lugares em que ficaram os dez magníficos, ou não. E, o meu coração parou quando vi Álvaro Cunhal em segundo lugar. Os pulmões petrificaram quando viram 19% para Cunhal e 41% para Salazar. E só uma palavra me vinha à cabeça (não a digo, porque este blog tem de manter as aparências...!), tamanha era a minha estupefacção. Acreditem que demorei umas horitas a adormecer... primeiro li, depois olhei para o tecto porque não me conseguia concentrar a ler, depois saí da cama e deambulei pelo quarto... "Que exagero!" Talvez! "Era só um programa!" Pois era, e depois? Os resultados não mudam por isso mesmo". "Foi um voto de protesto, apenas!" Acredito que sim! Mas também acho que são resultados que merecem uma reflexão séria!!

Gostei de ouvir o Fernando Dacosta, gostei dele não sei explicar porque, mas isso também já é habitual! Gostei de o ouvir dizer, e espero não estar a confundir as pessoas porque no momento dos comentários o meu cérebro, pura e simplesmente, não funcionava, "é um voto de protesto porque aquilo que muitos, e eu incluído, prometeram no 25 de Abril nunca foi cumprido em mais de trinta anos de democracia". E o meu sangue gelou ao ouvir estas palavras!

Hoje falava com uma amiga minha, e disse-lhe o que vos estou a dizer a vocês, e no fim rematei: "Há gente a passar fome em Portugal. Como é possível? E depois constroem isto, pagando por elas o triplo ou até mais do que aquilo que custam na realidade (e apontei para as pontes feitas em Coimbra nos últimos tempos). E há jogadores de futebol e treinadores a ganharem mais dinheiro num dia do que muitos ganham num ano. " E de repente lembrei-me do que um dia, há cerca de três meses, alguém que experienciou o 25 de Abril me disse: "Anda qualquer coisa no ar. O mesmo que andava em Abril de 1974." Na altura julguei que ele fosse louco, hoje acredito e rezo para que seja verdade.

Já não sei o que dizer mais. Talvez não me tenha chocado tanto a vitória de Salazar mas o perceber que, de facto, está alguma coisa MESMO muito mal neste país. Mas ontem, hoje e amanhã vou consciencializar-me desse facto... interiorizar e olhar à minha volta para entender o que realmente se passa! Passar pelas cortinas e forçar as fechaduras para entrar nos quartos fechados!

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