domingo, 13 de agosto de 2006

Mundo real?


Relembrem-se do que aconteceu há uns anos atrás na Europa quando um determinado país invadiu outros países. Na altura provavelmente toda a gente achou o acto normal tal como hoje está a acontecer. Mas no final de uma guerra mundial (que essas invasões deram origem) já todos condenavam os invasores. Uma das coisas que não entendo hoje é como nós podemos achar normal a invasão de um país, qualquer que ele seja (com a excepção obviamente de países que possam prejudicar o nosso próprio país e que seja necessário como defesa invadi-los... o que não é o caso do Líbano, do Iraque e de outros países que já passaram pela mesma realidade)... não entendo como as Nações Unidas estão tão "acomodadas" a esta realidade.
Há dias surgiu uma "notícia" de que no 11 de Agosto iriam ocorrer ataques terroristas, fazendo uso novamente de aviões. Surgiu o alarme dado pela polícia britânica... ao final do dia surgia a divulgação de que 24 pessoas já haviam sido presas. Mas nada de provas apenas presunções, um alarme geral, pânico na face de muitas pessoas que surgiam nos ecrãs. "É a primeira vez que vou viajar e não estou optimista depois de ouvir estas notícias", dizia uma voz. "Falei com um senhor que precisava de apanhar o avião porque a filha tinha uma operação marcada. E só podia ser nesse dia. O senhor estava muito preocupado e desesperava por apanhar o primeiro avião" (penso que ia para Inglaterra). As vidas que ficaram transformadas devido a esta notícia, os planos que sairam frustrados devido a uma suspeita que se era real, não se concretizou!
Nas televisões não se falava de outra coisa. Ataques terroristas, o que se sabe e o que ainda não se sabe que podia acontecer, o pânico, as longas filas para arranjar um bilhete de avião, o kit que se podia levar para dentro do avião, as longas esperas ("Há quanto tempo está aqui?" "Desde as 7horas da manhã"), as caras de desespero, o mundo transformado... 20 minutos de telejornal a falar sobre isto! Restava 5 minuts para falar dos 10 ou 18 incêndios que lavraram no nosso país e 2 minutos para falar da guerra no Líbano, das inúmeras pessoas que passavam fome, das crianças que morriam às dezenas todos os dias por falta de comida. Que conveniente!
É apenas uma opinião e nada mais que isso. Mas julgo que esta notícia surgiu no momento certo! As pessoas estavam a ficar demasiado preocupadas com a situação de crise humanitária que estava a surgir já há uns dias no Líbano, e era necessário fazê-las esquecer isso e fazê-las pensar noutro assunto mais grave. Até imagens do 11 de Setembro vi no ecrã...
Não preciso de enumerar as inúmeras situações semelhantes a esta que já sucederam...de manobras da opinião pública fazendo uso dos meios de comunicação social. Por exemplo, os EUA andaram imenso tempo a declarar ao mundo que o Iraque tinha armas de destruição maciça que estavam escondidas. E por isso tornava-se imperativo invadir o país para que eles não as utilizassem... isto não foi assim há tanto tempo! Até mapas eles mostraram e imagens de satélite que provavam que Saddam de facto tinha armas de destruição maciça. E a população mundial acreditou sem pestanejar nas provas dadas pelos nossos "amigos" americanos que anunciaram a invasão em solo português. E todos estavam contentes e sorridentes... para a fotografia! E uns anos depois, quando já tinham invadido um país, destituído o líder desse país e destruído um país, vieram a público desmentir essas "armas de destruição maciça". Vieram dizer que tinha sido tudo mentira, e que as imagens de satélite tinham sido inventariadas. E todos voltaram a acreditar como se o Homem não tivesse um cérebro para questionar o que vê e ouve! E a notícia do desmentido foi ouvida uma vez porque nestas situações convém não fazer muito alarido.
E desta vez sucedeu algo parecido. Lançaram a notícia, colocaram os aeroportos em situações complicadas devido ao cancelamento de voos e às esperas intermináveis dos passageiros, prenderam uns quantos muçulmanos, e deixaram o mundo novamente em situação de alvoroço. O assunto vai ser esquecido daqui a uns tempos, mas a justificação dada por este acontecimento para combater grupos terroristas (como o Hezbollah é chamado nas televisões pelo mundo fora, incluindo a portuguesa) não vai ser esquecida tão cedo. Porque o medo é um sentimento forte que não nos deixa raciocinar!
Nos jornais vem referenciado um alegado terrorista que confessou a existência de planos para explodir aviões com destino aos Estados Unidos da América. Mas mesmo assim parece-me muita coincidência, parece-me que esta notícia surgiu no momento certo. Quando Israel está a bombardear as pontes de acesso a Beirute, a não permissão da passagem das ajuda humanitária por Israel, a morte de milhares de pessoas libanesas e dezenas de israelitas (estou a exagerar?... vejam os números...), a catástrofe humanitária existente no Líbano que toda a gente tenta ignorar... tantos problemas que foram esquecidos há quatro dias atrás quando surgiu a possível existência de um ataque terrorista.
Não vou dizer mais nada. Acho que já tentei expôr claramente a minha posição relativamente a este assunto e como não sou nada nem ninguém, a minha opinião não é assim tão importante. E por isso mesmo, termino com o desejo de que este pesadelo que começou há um mês e dois ou três dias no Líbano termine o mais rapidamente possível (se cumprirem o cessar-fogo irá terminar amanhã) e que seja feita justiça.