sábado, 19 de agosto de 2006

Janela com vista para...


Um dia quando tinha 10 anos perguntaram-me o que queria ser quando fosse grande. Aquelas perguntas de que nenhuma criança consegue fugir, apesar de não saber muito bem o que significam aquelas palavras. Algumas não sabem o que vão fazer no futuro, outras gostariam de ser como os seus ídolos, e outras gostariam apenas de ser "alguém". Eu respondi convictamente que gostaria de ser jornalista. E quando me perguntaram se não achava a profissão demasiado arriscada, concordei mas logo repliquei que isso não a tornava menos apetecível. Era a época da Guerra no Iraque e o Artur Albarran, na altura, fascinava-me.
Anos mais tarde estou a pensar se ela ainda se lembra desta conversa. Ela era a minha professora da escola primária. Até aos meus 12 anos vivi numa aldeia, como tantas outras em Portugal, onde existia fome, miséria, frio... onde há 15 anos atrás não havia ajudas para famílias carenciadas. Eu via alguns membros desses agregados, na mesma escola que eu, com o nariz "sujo" porque não tinham dinheiro para lenços de papel. Nem de papel nem de pano. E a realidade era crua... muitos chegavam à escola sem tomar o pequeno-almoço, e lembro-me muito bem disso. O leite dado na escola era para eles um rebuçado! Lembro-me bem quando um se sentiu mal ao jogar futebol, ficou sem forças e logo toda a gente entendeu a razão... Mas nem todas as pessoas passavam dificuldades... quatro famílias eram talvez as mais carenciadas da aldeia, tinham crianças da mesma idade que eu. O que significa que contactei com a miséria dos outros junto de mim... e não é bom recordar!
Não sabia como ajudar, não sabia o que fazer e muitas das vezes nem me apercebia do que se passava à minha volta. A minha professora da escola primária (a tal) era esposa do Presidente da Câmara o que muito ajudou, sobretudo quando ela própria tomou contacto com os problemas da aldeia. E ajudou-os! Deu-me o exemplo que nunca vou esquecer... tal como nunca vou esquecer as crianças iguais a mim que apareciam na escola com fome, com os sapatos rotos, com frio, ou simplesmente sem lenços para se assoar... Mas eram iguais a mim! E ainda o são!
Hoje estão bem... todos trabalham... não tem cursos superiores porque a vida não lhes deu essa hipótese... mas continuam boas pessoas como na escola primária... lutam para ganhar o seu sustento e nunca mais sentir o estômago vazio... E continuam iguais a mim! Apenas nasceram com azar, e sem os privilégios que sempre tive! Nasceram sem oportunidades, sem esperança e ajuda. Hoje ao olhar para o passado não consigo justificar o porquê de tanta desigualdade... acho que ninguém entende. Olhamos para nós, para a nossa vida e achamos que temos tão pouco comparativamente com o companheiro do lado... mas esquecemo-nos de que em Portugal nem 15% da população tem computador... já para não falar do acesso à Internet. Gozamos com o "povo" na televisão (e também estou a falar de mim), mas esquecemo-nos de que eles não tem a nossa cultura, os nossos conhecimentos, a nossa educação, e os nossos meios... apesar de serem iguais a nós.
Este "discurso" não surgiu de repente mas foi despoletado por um filme... "Amor sem fronteiras"... era uma história banal como tantas outras se não nos transportasse para uma realidade pouco vista pelo nosso consciente. Imagens de países em crise, em guerra, com secas extremas, com pessoas a morrer à fome, crianças demasiado magras e fracas prestes a ser comidas vivas por pássaros esfomeados. Que pesadelo! Mas em que planeta vivemos nós!? É tão raro emocionar-me nos filmes, ficar revoltada com imagens supostamente ficcionais caracterizadoras de um filme, mas este tocou-me bem no fundo. Não só pelas imagens, palavras mas sobretudo pela grande lição de vida que nos dá, e também porque me fez pensar que somos tão pequenos ...
Quando nos acontece algo de errado ficamos revoltados e pensamos que somos imensamente infelizes nas a verdade é que não fazemos a mínima ideia do que é ser infeliz. No filme havia um miúdo que tinha enterrado a família... devia ter à volta de 10/11 anos, e no entanto continuava a viver e a lutar pela vida. Era corajoso... e sim, era... porque também ele morreu de frio em Inglaterra! O filme tem um final triste e não é triste por as duas personagens principais não ficarem juntas como em qualquer filme romântico... é triste porque as situações de fome e miséria que o filme reporta ainda existem no mundo... e parece que tem tendência para aumentar e piorar. Porque não tenho falado de outra coisa nos últimos tempos neste blog, e não só, relembro que o Líbano está a viver uma situação de calamidade porque um determinado país decidiu invadi-lo... mas não se preocupou com as vidas de milhares de inocentes que iriam terminar, ou com a fome que ia ser sentida, ou com as crianças que não iam crescer porque nasceram na época errada... e quem sabe, na família errada, na cultura errada, no país errado.
Quando olho para uma pessoa com menos qualificações do que eu, ou com menos dinheiro do que eu, ou com menos algo do que eu... não penso que é inferior, mas apenas que não teve as oportunidades (tantas vezes desperdiçadas) que eu tive. E porque odeio injustiças, gostava que o meu mundo não as tivesse... e por isso aos 10 anos quis ser jornalista...

4 comentários:

eXcer disse...

Mt bom post da tua parte... Gostei de ler! :) Jocas! ****

Mooncry disse...

Merci :) Foi tudo provocado por "aquele" filme...algumas realidades são mto revoltantes, pelo menos para mim.
Bjinhos

Fernanda disse...

Nossa!! mudou o meu dia após a leitura, é tão bom imaginar um mundo mais igual, pena ficar só na imaginação...
Vou assitir o filme...

Mooncry disse...

O filme mudou a minha semana (talvez o mês e o ano, e exagerando posso dzer que mudou a minha vida.. mas isso já é muito tempo).. sobretudo pela mensagem que transmite!
Aconselho vivamente a veres sim, está muito bom! Acho que deve ter sido por causa dele que a Angelina Jolie adoptou as duas crianças que tem (quer dzer, agora já tem tres...),portanto parece que o filme mudou mesmo uma vida... ou até mais vidas! Só é pena é que não mude o essencial, as realidades de que fala!
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