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as crianças. na praça.


Na praça onde trabalho há crianças. crianças que brincam no meio da erva a que chamam relva, na imundice deixada pelos adultos viciados em aditivos. naquela praça já não há pais que acompanham as crianças à escola, não há amparos nem preocupações. a chuva cai e, sozinhos na praça, acompanham-na até chegarem à soleira da porta de casa.
as crianças, na praça onde trabalho, vão para a escola sozinhas. acompanhadas pela mochila, o saco de pano que lhes acalenta os conhecimentos que eles querem assimilar. o mundo que habitam não lhes dá esperança para o que trazem, todos os dias, no saco de pano.
a praça onde trabalho é dividida por uma auto-estrada. de um lado há um mundo normal e do outro crianças sozinhas a deambular para a escola. os adultos vivem a sua anarquia em cada esquina. as caras tristes e sem sonhos, os olhos vazios, os cabelos desgrenhados ao sabor do vento e dos raios de sol que se soltam por entre as árvores. a praça onde grassam vícios no chão. onde nem sempre o vento os some para as valetas.
as crianças da praça vão para a escola sozinhas ou com amigos. no silêncio da praça que gravita entre as árvores como que a extrair a esperança de sorrirem um dia com pureza e realismo. as crianças absorvem os seus direitos a cada passo solitário. as folham contam histórias de heróis que mudaram o mundo. esses também seguiam para a escola sozinhos.
aquelas crianças, naquela praça onde trabalho, foram despejadas no mundo sozinhas. com os pensamentos. naquelas crianças habitam sonhos. muitos entraves os irão impedir no amanhã. a eles e a nós que os vemos. o sonho é algo que se desvanece rapidamente. como um sopro. um fechar de olhos.
as crianças que vão para a escola sozinhas na praça serão as crianças do futuro. aqueles que lutarão nas fileiras da justiça, acompanhados por outros que viveram rodeados de solidão que se soltaram de outras praças, ruas e vielas.

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