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O clima entre-aspas

José Gil escreveu um ensaio na Visão n.º 743, de 31 de Maio de 2007. Coisas muito importantes foram ditas. Eis algumas delas:

"Com a multiplicação dos candidatos independentes e de pequenos partidos, parece que o sistema político-partidário ficou abalado; a esquerda não combate uma oposição coligada, nem a direita, dispersa, enfrenta uma esquerda coesa e coerente.

Deriva será um termo demasiado forte. Mas a verdade é que os factos se sucedem (...) induzem comportamentos obedientes, subservientes e medrosos que vão envenenando a pouco e pouco as relações entre as pessoas. São míriades de pequenas coisas, aparentemente insignificantes, que não dão azo a notícia, mas que os médicos, os professores, os funcionários públicos vivem quotidianamente. Tudo isto gera um clima que vai fazendo bola de neve.

Um clima não é uma realidade vaga. É um meio contaminante que pode suscitar identificações e oportunismo. O exemplo vem de cima, não por afirmação de autoridade, mas por autoritarismo. Em geral, o chefe afirma-se autoritariamente quando não tem a autoridade natural necessária para o fazer. O autoritarismo sobrecompensa a falta de autoridade, intensificando e sobredeterminando os traços de poder que detém, e ultrapassando a fronteira que lhe concede o seu estatuto.

Vindo de cima, em regime democrático passivo como o nosso, é recebido pelos patamares inferiores da hierarquia com um efeito alucinatório que amplifica o poder do poder, a margem de que dispõe quem manda e comanda. O impacto nos subordinados é traumático...

Será que os portugueses não têm outro modelo de comportamento face ao poder senão a obediência passiva, a submissão e o medo? Será por isso que têm saudades de Salazar?

Que fez o poder socialista para promover a democracia, desenvolver a cidadania, incentivar a liberdade e a criatividade que as suas reformas deviam, necessariamente, suscitar?

É este o preço que se paga pelo equilíbrio do défice orçamental? Não chega dizer que estamos em democracia e que ela é respeitada. A liberdade e a democracia devem ser descobertas permanentes, conquistas de novos territórios interiores e exteriores.

(...) esperemos que, durante um curto intervalo de tempo, a multiplicidade das candidaturas à Câmara rompa a direcção única do discurso único, o clima único de veneração submissa ao poder, encarnados na sempiterna cassete dos grandes e de alguns pequenos partidos."

Página 34 da Visão desta semana. Ultra aconselhável!

P.S.: Dá gosto abrir a revista esta semana. Uma folha de publicidade do perfume de Giorgio Armani, attitude, com uma parte com a fragância exala um odor espectacularmente bom. Divinal...acho que vou retirar a folha de publicidade e afixá-la permanentemente em frente ao computador. Torna os momentos menos bons em perfeição, e os maus num sorriso o mais rasgado possível. Homens deste país... tenham uma atitude e comprem o perfume! Revistas e jornais de Portugal... apostem em perfumes e tragam sempre uma página com uma fragância... vai dar um gozo enorme abrir a publicação. Por pior que estejam os textos, o leitor irá continuar sempre a ler só para cheirar o perfume!

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